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quinta-feira, 13 de maio de 2010

Na Gare de S. Bento

São duas horas de uma madrugada quente. Na estação de S. Bento, na baixa do Porto, há uma agitação anormal. Na sala de espera, um grupo de actores e realizadores da Escola de Cinema do Porto, retiram do corpo os trajes da cultura, e vestem a alma com ráfia, pintam-na de cores, e lá vão eles túneis adentro, com os pés descalços sobre os carris. E de novo o fogo. Uns cantam, outros riem, outros ainda lançam com a boca petróleo contra os archotes que nos iluminam. Câmara, acção, acção... Uma cena, um plano, uma única vez. Plano aberto, câmara fixa... filma, filma!!! Uma das grandes frases de Nietzsche: “Temos que defender os FORTES do domínio dos fracos.”

Meia-noite

Meio-dia. Pelas ruas da Sé, até ás muralhas Fernandinas, o povo afirma a passagem do coro. “Querem entrar?” – “Muito obrigado! Queremos sim. Estamos a fazer um filme!”.

O Coro dos Realizadores da Escola de Cinema do Porto, sobem a rua da Bainharia e param em frente ao numero trinta e três. As portas e janelas desta casa estão completamente tapados por tijolos vermelhos. “Vamos filmar!” – Afirma o Mestre. “Porto - State of Art” – pode-se ler no seu inseparável chapéu. O.k. Vamos lá! Esta cidade respira uma saúde leve, descompremetida.

O povo da rua Escura, sai das suas casas e acompanha com entusiasmado interesse as nossas movimentações. “Dona! Podemos entrar na sua casa para colocar-mos panos vermelhos na janelas? É para fazer um filme!” – “Claro que sim!” – Afirma! -  “Dona! As nossas actrizes querem pôr-se á janela de suas casas com a face tapada com véus negros! Sabe, já fizemos um filme azul, um outro vermelho e, agora estamos a rodar um filme negro!” – “Sim, podem, podem!” – Afirma! – “Dona! Podemos usar a sua electricidade? E os seus quartos para trocar-mos de roupa?” Sim, estejam como em casa!” – Afirma! – “Querem comer algo?”

Meia-noite. Sentados sobre pedras seculares, com a alma pintada a negro, à luz do fogo, filma-se a magia, o mito, a crença tendo como única testemunha, a igreja dos Grilos.



Porto Épico

São quatro horas da madrugada de um dia limpo de outono. No largo de S. Domingos, no Porto, cá estamos nós, aquecidos por uma “bomba” cuidadosamente preparada pelo Sr. Alexandre, dono da confeitaria da zona. Ao cimo da Rua das Flores avança devagar, mas decidido e firme, o nosso “Mestre”. Recordo o combinado. Sem saber muito bem como nem porquê, havíamos decidido filmar o Porto. Mas o Porto... como? Para quê?
Exactamente no momento do primeiro raio de sol, o Coro dos Realizadores da Escola de Cinema do Porto, asseguram deitados nas areias frias e molhadas do Areinho de Oliveira do Douro a primeira imagem. Perdão: o primeiro magnífico quadro cinematográfico. Câmara fixa plano completamente aberto, sai de cena quem não é de cena... claquete...acção. Atenção ao tempo do plano... quando devo parar? Agora? Ainda não... Agora! Não, não... Agora! Porra isto ainda não desligou... O botão que pára é este. O.k! Já está. “Mestre! Estou todo molhado!” – Grito. “Na alma?” – pergunta o mestre. “Não, nas calças e na camisa!”.
Partimos na direcção da foz do Rio Douro. Havíamos decidido acompanhar o sol no seu percurso elíptico, agarrados às suas mãos subindo até á serra do pilar aonde, exactamente ao meio dia, ponto mais alto do sol, ponto mais alto do Porto, filmamos o 5º canto, a quinta cena, o quinto quadro cinematográfico. Começara a sentir-me bem. Muito bem mesmo. Olho o Mestre. Aquele Homem propõem-me a liberdade, propõem-me agir de forma leve e descomprometida. Fala-me do corpo e da alma. O corpo leva porrada. Quanto mais melhor. A alma vai-se soltando á medida que o corpo morre, ou pelo menos ficando cansado. Exactamente ao pôr-do-sol, filma-mos na Afurada, o decimo quadro.
Porto Épico. Um filme em dez cantos. Mas porquê, para quê? A razão é tolhida. Não há razão para o filme. Nem tem que haver. Viva a magia dos números!
Viva o dez! Vivam os dez cantos! Vivam os dez magníficos quadros cinematográficos. Viva o monólogo!